Falar perante uma plateia lotada é um dos maiores temores que a maioria das pessoas têm. E a principal causa desse nervosismo – e consequente círculo vicioso que pode levar ao “branco” mental – é achar que as pessoas só notarão seus erros. Para você, que sofre com isso, uma boa notícia: o que falamos na frente de um público é alvo de, aproximadamente, 10% da atenção. O restante é focado no modo como você se comporta e no tom da sua voz.
“As pessoas têm, principalmente, medo de falhar em público. Esse medo vai naturalmente levar a um processo que gera uma reação do organismo. O organismo entende que há uma situação de perigo e vai desencadear um pico de adrenalina. É esse aumento nos níveis de adrenalina que vão causar o suor excessivo, taquicardia, alteração da voz e tensão”, explica Ingrid Gielow, fonoaudióloga e membro da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa).
Essa situação – algo similar ao que acontece quando o cérebro acha que a resposta ideal é fugir do perigo – é passageira, mas, nesse meio tempo, o raciocínio e a memória ficam comprometidos. O último estágio dessa reação é o “branco” mental, que faz com que a pessoa esqueça tudo o que iria falar.
“E isso não acontece somente com pessoas tímidas. Indivíduos extrovertidos, fora do palco, podem passar pelos mesmos problemas. O medo de falar em público não tem nada a ver com timidez”, completa Juliana Algodoal, profissional de fonoaudilogia e também membro da SBFa.
A primeira coisa para vencer esse tipo de situação é estar preparado. Conhecer profundamente o assunto que se vai apresentar, estudá-lo com cuidado antes de subir ao palco e fazer uma preparação psicológica anterior são fundamentais.
“Controlar a respiração e entender que, nos primeiros momentos, a boca seca e as reações da adrenalisa vão passar é a segunda parte. Isso é natural – até artistas renomados dizem sentir o ‘frio na barriga’ antes de uma apresentação”, explica Algodoal.
Números e foco
Juliana observa ainda outro fator que pode trazer maior tranquilidade à pessoa com medo de falar em público: saber como funciona a dinâmica de uma apresentação para uma plateia.
“Os gestos são o grande foco de atenção de uma audiência. Pesquisas indicam que, em praticamente 60% do tempo, as pessoas prestam atenção em como alguém que está fazendo uma apresentação se comporta. Portanto, o andar, a gesticulação e o sorriso – coisas mais ou menos fáceis de treinar e assimilar – são mais que a metade do caminho para controlar as atenções”, diz Juliana.
Outros 30% do foco são direcionados à voz. “Falar de forma clara – nem devagar, nem rápido demais – com uma boa entonação, controlando ou corrigindo os erros do discurso e usando os termos corretos são outros itens fáceis de controlar. Dessa soma, sobra algo em torno de 10% da atenção do público relacionado com o tema da fala daquele indivíduo que está em destaque”, completa a fonoaudióloga. Concorre, nesse último item, a apresentação em si, apresentada na tela. No final das contas, as pessoas focam aproximadamente 7% no que a pessoa realmente está falando.
Os 7% restantes da apresentação
Para que a apresentação de uma fala em público seja considerada boa, portanto, é preciso, antes de mais nada, presença de palco, uma boa verbalização e, finalmente, dados e informações que façam sentido. Ingrid aponta ainda algumas dicas para controlar de maneira efetiva a apresentação:
• Fazer uma pauta geral do que vai apresentar e estudar antes da apresentação. Saber a ordem dos slides ou das imagens apresentadas também é importante. O cérebro precisa de um caminho a seguir. “E quando se estuda essa ordem, fica mais fácil deixá-la no ‘automático’, sem maiores problemas. É como ter um mapa com dicas. Dessa forma, o perigo do ‘branco’ mental diminui”, aponta Ingrid.
• Uma apresentação tem começo, meio e fim. A introdução do assunto pode tomar cerca de 20% do tempo. O mesmo serve para a finalização – que é muito importante –, sendo que em apenas 40% do tempo é que será apresentados o tema principal da explanação. “Essa estrutura deixa o ouvinte confortável, ele vê o assunto evoluindo. E tão importante quanto fazer uma introdução é saber dar fim à apresentação. Deixar de concluir um assunto abordado pode ser algo frustrante para quem está assistindo”, diz a especialista.
• Se preparar psicologicamente é outro ponto que traz maior segurança. Imaginar-se fazendo a palestra sem erros e, até mesmo, prever questionamentos da plateia é uma ótima técnica. “Quando imaginamos a apresentação já damos indicativos para o cérebro se acalmar e não entender aquilo como uma situação de perigo. Mas é importante imaginar de uma forma positiva. Se o indivído focar nos possíveis erros, o processo de nervosismo acaba se engatilhando”, explica.
• Saber lidar com o erro e não se abalar nas próximas apresentações é outra dica da fonoaudióloga. O medo não some do dia pra noite e, como já dissemos, até mesmo artistas gabaritados sentem “frio na barriga”. “Esse “frio na barriga”, que é em parte causada pela descarga de adrenalina, também tem sua parte boa. Se a pessoa consegue utilizar isso para se concentrar melhor – algo como canalizar a agressividade trazida naturalmente pela situação de medo – a situação muda completamente de figura. Os cantores e artistas treinam justamente o controle dessa reação para conseguir melhores atuações, por exemplo”, afirma a especialista.
“Para falar bem em público, o importante é treinar, ensaiar os movimentos. A naturalidade é resultado de preparação e não do inverso”, finaliza Juliana.
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por Enio Rodrigo
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